O FLUXO DA LATA
por Alan Santos
Pensar com Gu da Cei é encarar o espelho da CEI. Que não era superquadra do Plano Piloto, mas plano de sobrevivência. CEI é a Ceí, hoje o nosso lar. Onde a escassez virou estética de luta.
Ceilândia nasceu do corte, da destituição. Afastaram os braços que ergueram a capital da nação. Da Vila do IAPI pro isolamento desplanejado onde o privilégio não pisa, o povo foi jogado em um local precário, barracos, poeira e lama. A história esquece, mas a memória reclama. Disseram “Invasão” pra quem construiu o chão. E deram a exclusão como única gratidão.
580 latas na fila da sede. Onde a dignidade bate contra a parede. Gu da Cei traz o ferro, a ferrugem e o brilho. Retratando o povo que nunca saiu do trilho. É demarcação, é contrafluxo. Nossa resiliência é o nosso maior luxo! Caminhão-pipa era o rei daquela paisagem. Água de lata, o peso da desvantagem. Banheiro fora de casa, a fossa no quintal. A água que banha é a mesma do ritual de lavar a roupa e tentar sobreviver. Num lugar que o Estado fingia não ver. Léguas de distância do lugar central, transporte quase inexistente. Onde a água era vendida e o lucro era o dono, Ceilândia brotava no meio do abandono, como um cão sem dono.
580 latas na fila da sede. Onde a dignidade bate contra a parede. Gu da Cei traz o ferro, a ferrugem e o brilho. Retratando o povo que nunca saiu do trilho. É demarcação, é contrafluxo. Nossa resiliência é o nosso maior luxo! Ninguém caiu na cilada do esquecimento. O Rap, o Cinema, as Artes Visuais. Gu da Cei é o movimento! Ele sente na criação o que o asfalto escondeu. O sofrimento antigo que não se dissolveu. Ele projeta e performa o chão marcado pelo caos. Transformando em vida os nossos velhos degraus.
580 latas na fila da sede. Onde a dignidade bate contra a parede. Gu da Cei traz o ferro, a ferrugem e o brilho. Retratando o povo que nunca saiu do trilho. É demarcação, é contrafluxo. Nossa resiliência é o nosso maior luxo! A instalação tá posta: é o incômodo que comunica. Onde o Estado se omite, a nossa memória fica. Ceilândia não é silêncio, é o próprio movimento. Tentaram apagar, Gu escreveu por cima. A Cei vive. E agora… O Museu sente o nosso clima.
580 latas na fila da sede. Onde a dignidade bate contra a parede, Gu da Cei traz o ferro, a ferrugem e o brilho. Retratando o povo que nunca saiu do trilho. É demarcação, é contrafluxo. Nossa resiliência é o nosso maior luxo! 580 latas… Não é só ferro, é espelho. Onde Gu levantou a voz, fez do vazio a estrutura, invasão de memória e consciência, transbordando na cultura. Do chão da Ceilândia pro mundo, a real nunca se esconde. A Cei vive. E hoje aqui a minha voz também responde.
Ouça a música aqui.