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(HABITAR) A ÚLTIMA CASA DA RUA

por Bia Morgado

Em um quintal na Ceilândia, uma mulher arremessa um copo americano na direção de quem assiste. Como quem diz: acorda para ouvir minha história! O tempo não pára: o ônibus, o ponto de ônibus, os passageiros dos ônibus, o pneu do ônibus. Camelôs, uma caixa-d’água, panelas à venda, roupas no varal, carroças. A câmera de Gu da Cei percorre a cidade em cortes rápidos, compondo um inventário de gestos, objetos e vozes. A vida passa em ritmo acelerado. A montagem interrompe o fluxo da cidade para escutar as histórias que resistem à pressa.

 

Goiânia. Um homem folheia, rasga e amassa Judy Garland, Elizabeth Taylor e outras lendas da Era de Ouro de Hollywood, em som amplificado. Símbolos de um passado glamouroso que o filme busca desconstruir. Em GRANADA, Benedito Ferreira nos apresenta o bailarino Dom entre portas, espelhos e frestas. Juntos, ensaiam uma carta de amor ao cinema, fazendo filmes dentro do filme. Há um método. A câmera emoldura um recorte da casa. Espera. Enquadra um cômodo a partir de outro, reservando a intimidade à distância. E só um tempo depois, aproxima-se. O silêncio também compõe as cenas. A vida parece suspensa no interior verde-hospital da casa. O filme é dentro.

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Em De Codó a Ceilândia, a casa é feita de deslocamentos. Entre o Maranhão e o Distrito Federal, entre as lembranças do passado e a conquista de um lugar para viver. Porta-retratos, álbum de família, a imagem de santo na parede e até uma foto-pintura são convocados para narrar a trajetória de Angélica, mãe de Gu, e seu pai, o Careca. Essa família constrói, aos poucos, a possibilidade de dizer: “é nosso”. Suas vozes e imagens contam histórias de migração, violência, trabalho precarizado e pertencimento que compõem uma memória coletiva dessa região administrativa, na periferia de Brasília. O reggae dita a cadência do filme, dentro e fora de casa.

 

Dom muda de casa ao longo dos anos. Terezópolis de Goiás, Nerópolis, e novamente Terezópolis. Alguns objetos persistem: a cômoda verde, o copo de conhaque Presidente, o pequeno busto de David, as castanholas, o lenço de poá, as fotografias da juventude… O filme se constrói como um álbum que não termina de se organizar. As imagens arquivadas por Dom ativam a memória, enquanto a câmera recorta o presente, revelando e escondendo as casas. São histórias de quando o coração sangrou de amor, das pedras que alteraram a rota, da paixão pelo cinema e suas estrelas, dos papéis que gostaria de ter interpretado, dos espetáculos que ainda deseja realizar, entre outros papos de comadre. Benedito fabula futuros em Dom. Entre ambos, vemos também o registro do intervalo, da negociação, da encenação, da admiração e repulsa.

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Em De Codó a Ceilândia, Gu cria um dispositivo para ativar a memória que circula entre gerações marcadas pela Campanha de Erradicação de Invasões (CEI). “Ceilandenses”, muitos vindos do nordeste, são convidados a construir o filme, ocupando o estúdio montado pelo artista em praça pública com o mesmo tecido dos bancos dos ônibus. Quem passa horas no transporte público reconhece essa estampa como casa. A região, feita de vozes, concreto e pouquíssimas árvores, transforma-se em museu vivo, no qual Gu altera a paisagem com sua arte. Suas super catracas infláveis viram trampolim para seus pais mudarem de rota, enquanto constrói poemas no tempo. Gu faz manifesto.

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Apresentar a vida, melancólica e solitária, de um homossexual idoso, que não cita familiares, também faz de GRANADA, denúncia. Entre conversas, pausas, goles de conhaque e falas conservadoras, surge um corpo marcado, desde a infância, pelo medo e pela violência de ser quem é. Dom aprendeu a se proteger no abrigo da casa, mantendo-se escondido nas ruas. O amigo Benedito também filma o corpo que sonha. Do lado de fora, Dom dança frente ao horizonte, com o Cerrado, e suas marcas do agronegócio, como palco. O som das castanholas, entoadas com elegância de um astro internacional, mistura-se ao da música sertaneja. Apoteose!

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Texto crítico da curadora e pesquisadora Bia Morgado para sessão especial A última casa da rua: filmes de Benedito Ferreira e Gu da Cei, realizada no Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte (MIS BH). Outubro, 2026.

 

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